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Terça-feira, 27 de Maio de 2014
CONFIDENTES

Não há como um confidente para destruir o charme das nossas loucuras e dos nossos segredos! Coisas de que eles, de tão normais e calculistas, jamais seriam capazes. Por mais simples e inocentes que sejam, nas suas caras sérias de tumbas aparecerá sempre um sinal de reprovação, um alerta de perigo ou de pecado. 

Porém, pior do que isso é que dias depois, do sapateiro ao enfermeiro, todos têm uma ténue imagem do risco de que nos livraram, tão ténue que é visto e revelado como fotografia em alta definição.

São eles que contam dos lustres que vendemos e não nos pertenciam, dos azulejos de que desfizemos o património, das generosidades e atrevimentos de que nos quiseram livrar, mesmo quando acabavam servindo-se delas. Mesmo quando nos devem tudo têm a habilidade de nos fazer crer que sem eles já nos teriamos perdido. É por eles que sempre se sabe tudo. Porque estamos desprevenidos e eles apresentam-se com uma casuítica muito própria. Criam-nos receios, mesmo quando já somos suficientemente velhos para pensar sozinhos, porque assentámos ali a nossa confiança e são uma espécie de alter ego. Até que tenhamos a coragem de nos emanciparmos deles que, generosamente, nos salvam.

É de confidências que os tribunais estão cheios. São elas que servem de alimento aos "ruídos" da comunicação social quando há que escolher entre um bom amigo e uma má reputação. E estamos ali, nós, desprotegidos, soltos, como se dali não pudesse vir mal...

publicado por petitprince às 01:42
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Domingo, 25 de Maio de 2014
LES LIAISONS DANGEREUSES

Escrever é um enorme risco! Não o escrever notícias, artigos ou romances. Escrever cartas! A literatura epistolar é não só extremamente pessoal como extremamente cúmplice. Do outro lado, perscrutando a intimidade de quem escreve, tanto pode estar o leitor eleito como um grupo de estudiosos prontos a encontrar intencionalidades ou analisar personalidades. Escrever tanto pode ser um acto de confiança como um acto de irresponsabilidade.

A maioria das pessoas prudentes, as que recusam assumir riscos - embora por vezes assumam riscos incomensuravelmente maiores em outros actos - não escrevem, ou fazem-no sem se denunciarem, através de códigos de escrita sem dono e sem destinatário.

Dizia Pessoa - de quem aprecio alguma poesia mas que me enfada como a pessoa que se descortina depois no "Livro do Desassossego" -  que "as cartas de amor são sempre ridículas". Eram-no especialmente para ele que as escrevia por tédio como, aliás, fazia tudo. As "boas" cartas de amor são aquelas que contam coisas, que são memórias ou diários de vida entre gente que se quer bem e que se entende. Cartas que nos fazem rir, chorar, que nos irritam, que nos desgostam, que perdoamos, que aguardamos, que temos urgência em ver chegar e em responder. As outras, as que surgem como xaradas que há que subentender, que podem ter interpretações diversas, conduzem a jogos extremamente perigosos, ainda quando calculados.  

Choderlos de Laclos, em "As Ligações Perigosas", mostra até que ponto o jogo pode ser estimulante e poderoso. Basta que haja um terceiro - no caso, três é multidão- para que se urda uma imensa teia de divagações de conteúdo.

Contudo, "viver é risco" e escrever para quem não inspira confiança pode ser igualmente estimulante para ambos os lados.  

Um jogo do espírito que se prolonga sem que haja vencedor ou vencido. Que nem sequer interfere com sentimentos. Não mais do que um modo de viver uma relação que, como as crianças, desejamos ver como funciona. 

publicado por petitprince às 23:05
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Terça-feira, 13 de Maio de 2014
IL GATTOPARDO

Dei com um blog super divertido! Há pessoas que conseguem estar em toda a parte. Até mesmo onde devem estar! 

 

O dito blogg trouxe-me à lembrança "o Leopardo", o belíssimo filme de Visconti sobre o fim de uma época e o olhar de um nobre siciliano que contempla com a atenta sensibilidade o ruir de um mundo que se povoa de aventureiros e arrivistas prontos a dominar o futuro... que acabaram dominando definitivamente.

A história passa-se na Sicilia, em Lampedusa, a ilha hoje conhecida como ponto de entrada de imigrantes que rumam à Europa. 

O pó dos tempos que se acumulava no velho palácio, a poeira que cavalos e carruagens deixavam no ar, a secura e rigidez dos usos, o  prazer furtivo da prevaricação, as suaves passadas de Don Fabricio e o seu olhar de prisioneiro perdido entre a dimensão do passado e a urgência do futuro, tudo isso um vento forte apagou da ilha onde a miséria se instala ameaçadora. E toda a história da Europa parece caber ali. Como uma ameaça.

publicado por petitprince às 21:30
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