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Domingo, 25 de Maio de 2014
LES LIAISONS DANGEREUSES

Escrever é um enorme risco! Não o escrever notícias, artigos ou romances. Escrever cartas! A literatura epistolar é não só extremamente pessoal como extremamente cúmplice. Do outro lado, perscrutando a intimidade de quem escreve, tanto pode estar o leitor eleito como um grupo de estudiosos prontos a encontrar intencionalidades ou analisar personalidades. Escrever tanto pode ser um acto de confiança como um acto de irresponsabilidade.

A maioria das pessoas prudentes, as que recusam assumir riscos - embora por vezes assumam riscos incomensuravelmente maiores em outros actos - não escrevem, ou fazem-no sem se denunciarem, através de códigos de escrita sem dono e sem destinatário.

Dizia Pessoa - de quem aprecio alguma poesia mas que me enfada como a pessoa que se descortina depois no "Livro do Desassossego" -  que "as cartas de amor são sempre ridículas". Eram-no especialmente para ele que as escrevia por tédio como, aliás, fazia tudo. As "boas" cartas de amor são aquelas que contam coisas, que são memórias ou diários de vida entre gente que se quer bem e que se entende. Cartas que nos fazem rir, chorar, que nos irritam, que nos desgostam, que perdoamos, que aguardamos, que temos urgência em ver chegar e em responder. As outras, as que surgem como xaradas que há que subentender, que podem ter interpretações diversas, conduzem a jogos extremamente perigosos, ainda quando calculados.  

Choderlos de Laclos, em "As Ligações Perigosas", mostra até que ponto o jogo pode ser estimulante e poderoso. Basta que haja um terceiro - no caso, três é multidão- para que se urda uma imensa teia de divagações de conteúdo.

Contudo, "viver é risco" e escrever para quem não inspira confiança pode ser igualmente estimulante para ambos os lados.  

Um jogo do espírito que se prolonga sem que haja vencedor ou vencido. Que nem sequer interfere com sentimentos. Não mais do que um modo de viver uma relação que, como as crianças, desejamos ver como funciona. 

publicado por petitprince às 23:05
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Terça-feira, 13 de Maio de 2014
IL GATTOPARDO

Dei com um blog super divertido! Há pessoas que conseguem estar em toda a parte. Até mesmo onde devem estar! 

 

O dito blogg trouxe-me à lembrança "o Leopardo", o belíssimo filme de Visconti sobre o fim de uma época e o olhar de um nobre siciliano que contempla com a atenta sensibilidade o ruir de um mundo que se povoa de aventureiros e arrivistas prontos a dominar o futuro... que acabaram dominando definitivamente.

A história passa-se na Sicilia, em Lampedusa, a ilha hoje conhecida como ponto de entrada de imigrantes que rumam à Europa. 

O pó dos tempos que se acumulava no velho palácio, a poeira que cavalos e carruagens deixavam no ar, a secura e rigidez dos usos, o  prazer furtivo da prevaricação, as suaves passadas de Don Fabricio e o seu olhar de prisioneiro perdido entre a dimensão do passado e a urgência do futuro, tudo isso um vento forte apagou da ilha onde a miséria se instala ameaçadora. E toda a história da Europa parece caber ali. Como uma ameaça.

publicado por petitprince às 21:30
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Quarta-feira, 16 de Abril de 2014
COMMONWEALTH vrs EUROPA

A Inglaterra, que ganhou consciência do seu lugar no mundo na época vitoriana, quando o sol nunca se punha sobre o império britânico, nunca deixa o seu crédito por mãos alheias.

Qualquer que seja a crise, a Commonwealth é de imediato alertada para as potencialidades desse império que se continua na Língua e na cultura britânicas e se fortalece e enriquece numa teia diplomática que só mesmo os ingleses dominam.

É curioso notar como perante a desastrada queda dos dollars a libra tem mantido a sua supremacia em relação ao euro!

Com um pé na Europa, o "coração" espalhado pelo mundo, e o não despiciendo dever de gratidão da alta finança apatrida, a Inglaterra consegue, numa época que parece convocada para a destruição e avessa a tradicionalismos, manter coesa à volta de Sua Majestade a Rainha uma unidade em que o pragmatismo ultrapassa antigos ressentimentos.

 

Com o seu inegualável sentido mundo e das suas circunstâncias, a Inglaterra, a democrática Inglaterra, sabe sempre o que lhe convém a si e aos membros da sua extensa comunidade.

Enquanto a Europa (de que faz parte às vezes...) se autopune de toda a espécie de torpezas cometidas no passado e no presente, e se afoga em miragens de salvíficas, guiada por eventuais timoneiros e  por uma irreprimível tendência para a desagragação, a diplomacia britânica exibe ao mundo o seu bom entendimento com a Escócia e a Irlanda, a Raínha e restantes membros da Família Real visitam os países membros da Commonwealth e, "last but not the least", procede-se a uma espécie de inquérito intercomunitário visando conhecer e decerto avivar o sentido de pertença que essas comunidades revelam relativamente à Commonwealth.

Tudo isto é sublimemente vivido nos grandes cerimoniais da corte, na partilha que através da comunicação social o mundo vive os acontecimentos familiares dos personagens reais. O mesmo se passa com a Igreja Anglicana, exibindo a ricos e pobres a grandiosidade que acha ser devida quando a Deus se dirige, sem que por isso deixe de ter imensas obras caritativas. Mas é um mundo onde tudo, bem e mal, é elegantemente discreto. 

Com todos os defeitos que lhe possamos apontar, a Inglaterra foi um colonizador ímpar e como tal reconhecido pelos povos dos territórios  que dominou, criando laços de dependência e riqueza que persistem. O inverso do que aconteceu com o império português em tudo foi desperdiçado, desde a iniciativa e os trabalhos dos que de um ou outro modo se empenharam na sua construção, até à precipitada descolonização que sacrificou os milhares de famílias a deixarem para trás as suas vidas para "retornarem" a uma metrópole onde muitos deles nunca tinha estado, que deixou que o sangue e a fúria se espalhassem  ao sabor do caos, nos territórios precipitadamente abandonados, que obrigou um pequeno país a integrar uma multidão de pessoas espoliadas que tiveram que recomeçar as suas vidas. Muito daquilo de que nos queixamos hoje, uns e outros, começou aí.

 

Os ingleses não precisam da Europa. Têm um pé em Gibraltar e, apesar de tudo, uma afinidade histórica com a Grécia que lhes garante vigilância atlântica.

Enquanto a Europa caminha sombriamente para um destino incerto, a Inglaterra partilha e celebra a sua grandeza.  

 

publicado por petitprince às 00:06
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